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quinta-feira, 2 de julho de 2009

O controle por via incidental na ação civil pública

Recentemente, de uma conversa informal de internet com uma amiga da faculdade uma interessante questão emergiu. Ela falava do seu projeto de monografia, cujo tema é a legitimidade da Defensoria Pública para a propositura de ação civil pública, quando me indagou sobre a eficácia da decisão do controle por via incidental na ação civil pública.

Num primeiro momento, confesso que não visualizei a pertinência da questão, razão pela qual respondi-lhe que não vislumbrava grande diferença do controle difuso ocorrido nela (ação civil pública) para o das demais.

Intrigado, inquiri a minha interlocutora sobre o que a levou a tal raciocínio. Ela, então, colocou-me diante do seguinte caso concreto:

"Suponhamos que a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro promulgue uma lei, dispondo que é desnecessário qualquer rigor para a veiculação de propagandas em vias públicas, podendo elas ser feitas de qualquer modo. A completa desatenção da lei estadual às normas de Direito Ambiental gera uma situação caótica, com a poluição visual no Estado chegando a níveis insustentáveis, o que leva o Ministério Público Estadual a ingressar com uma ação civil pública de responsabilidade por danos morais e patrimoniais ao meio ambiente. No bojo da peça, o Parquet, por via incidental, questiona a constitucionalidade da referida lei, alegando afronta ao art. 225 da Carta Magna e ao princípio da dignidade da pessoa humana. O plenário do Tribunal de Justiça, ao julgar a questão incidente, reconhece a inconstitucionalidade da norma impugnada.".

É cediço que a decisão do controle difuso tem eficácia inter partes, justamente porque debate-se um caso concreto, onde há partes envolvidas com interesses quase sempre conflitantes. Ao contrário, no controle por via principal ou concentrado não há litígio, não existem partes interessadas, mas tão-somente preconiza-se o paradigma kelseniano da hierarquia das normas jurídicas, consequentemente a defesa da ordem constitucional.

Todavia, se atentarmos para a natureza transindividual das ações civis públicas, possivelmente estaremos diante de uma figura sui generis de controle por via incidental. Pergunta: Quantos são os indivíduos atingidos pelos efeitos de uma decisão exarada numa ação civil pública? Para fins teóricos, imaginemos que todos os habitantes de uma dada localidade onde foi ajuizada a ação.

Nesse caso, a decisão declaratória incidental de inconstitucionalidade, que na teoria teria eficácia restrita às partes envolvidas, na prática terá efeito erga omnes, dado o caráter difuso da lide.

Interessante, não?

Parabéns à minha amiga pelo belo insight!

4 comentários:

raquel disse...

uhuu ganhei um parabéns!
Só cabe destacar que, segundo Alexandre de Moraes, caso a ACP seja promovida para tutelar direitos individuais homogêneos, poderá ser reconhecida a inconstitucionalidade do ato normativo. Ainda vou procurar outros doutrinadores para ver se eles comentam algum outro detalhe.

oluzes disse...

Inicialmente houve alguma discussão acerca dessa tema, em função exatamente do que foi exposto por vcs Afirmou-se que haveria usurpação de competencia do STF por parte do juizo que julgasse uma ação civil pública, pois a constituição afirma que apenas o Pretório Excelso tem competencia para julgar com eficácia erga omnes, através do controle concentrado.

Não obstante, o próprio Tribunal Supremo afirmou que se a lei que se pretende seja reputada constitucional for alegada apenas como questão prejudicial, seria sim possível a interposição dessa ação civil pública. Mas caso a mesma buscasse como efeito principal o reconhecimento da inconstitucionalidade de uma lei, ai sim ter-se-ia a usurpação de competencia do STF.

oluzes disse...

em qq caso poderá ser reconhecida a inconstitucionalidade do ato normativo. não entendi a dimensão da diferenciação que o AM fez.

oluzes disse...

BTW, sobre o tema Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo, Direito constitucional Descomplicado, 2009, Método; Forense, p. 728

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